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Caracterização da Freguesia de Vieira de Leiria

Fazendo parte integrante do concelho da Marinha Grande, a povoação de Vieira de Leiria situa-se a 14 quilómetros da sede do concelho e a 24 quilómetros da cidade de Leiria, capital do distrito. Localiza-se na margem esquerda do Rio Lis e a 4 quilómetros da costa, no extremo norte do Pinhal de Leiria.

Esta freguesia tem de área 4700 ha, no entanto a sua área urbana é de 400 ha. É composta pelos seguintes lugares: Boco, Casal das Raposas, Casal d’Anja, Casal dos Lobos, Galiota, Outeiros da Vieira, Outeiros da Passagem, Passagem, Praia da Vieira, Vieira de Leiria, Casal da Malha.


Foto Sergio Bento
   A freguesia de Vieira de Leiria, faz parte de um universo espacial, cujas características se podem agrupar segundo dois princípios de integração regional. O primeiro tende a enquadrar a vila e os seus lugares no âmbito de uma vasta região de transição entre o norte e o sul, que poderíamos fazer coincidir, grosso modo, com a província da Estremadura. O segundo integra a freguesia no conjunto das localidades da faixa litoral que se estende da Vieira para o norte, até Espinho, constituindo uma zona onde a influência do mar e das dunas se faz sentir de forma unívoca.


Relativamente à sua origem toponímica, são várias as hipóteses alvitradas. Segundo o professor Luciano Coelho Cristino: “a frequência com que se mostram os despojos da antiga indústria metalúrgica, nas vizinhanças da Vieira e da Marinha Grande, provam que a lavra e o benefício deste minério, em outras épocas teve muito desenvolvimento nesta parte do distrito de Leiria.”.



Vieira derivaria, assim, de vieiro, ou seja, metal. Por seu lado, para Ruy Acácio da Luz , o nome provem do latim “ vena-venae”, que significa “o que tem conduto de água”. Na boca do povo, porém, Vieira deve o seu nome às conchas caneladas, denominadas “vieiras” , que existiriam abundantemente nos extensos areais de outrora. A escassez de fontes e algumas opiniões contraditórias não nos permitem ter uma certeza acerca do nascimento da Vieira. As primeiras referências de que se tem conhecimento referem-se não à Vieira , pois esta talvez não existisse, mas sim ao Rio Lis que, apesar do seu curso irregular, terá sido certamente o causador do nascimento desta localidade.

Em 1094, D. Afonso Henriques, na sua incessante luta contra o domínio dos mouros na Península Ibérica, conquista Leiria e Torres Novas, sendo pois, acertado pensar que data deste ano a inclusão desta região no condado portucalense.

As primeiras citações sobre esta povoação datam do reinado de D. Dinis, tendo-se fixado o primeiro casal que deu “nascença” ao povoado, a 2 km. da margem esquerda do rio Lis, nas proximidades da sua foz. D. Dinis, como forma de promover a fixação e o povoamento desta região, isentou os moradores dos campos de Ulmar, do imposto da “jugada” e até de “hoste”, se morassem com suas mulheres continuamente no mesmo lugar e aí tivessem as suas casas. Com o fim do reinado de D. Dinis, os documentos acerca das actividades existentes na Vieira escasseiam novamente e só no reinado de D. Manuel (1495 – 1521) é que surgem elementos comprovativos do desenvolvimento da Vieira. Em 1512, Monte Real, Carvide e Vieira separam-se da freguesia de S. Tiago do Arrabalde e formam uma nova freguesia.

Já em pleno reinado dos Filipes (1580 – 1640) se pode ler a seguinte provisão: “ el-rei..., faço saber aos que esta minha provizão virem que considerando Eu o muito que importa para o serviço Meu e bem destes meus reinos... ordenei que se acrescentasse o meu pinhal que tenho em Leiria, pelas partes em que se podesse melhor criar e ficasse mais acomodado para a carregação, corte e carretos das madeiras e mandei fazer demarcação das terras que assy se podia semear... Item do marco o que se pôs ao caminho junto ao rio, que deviza direito ao mar ao longo da área que está junto com os ditos pinhaes da parte do poente e do dicto marco pela estrada que vai do dicto campinho vai direito ao lugar da Vieira pela banda de baixo da parte dos dictos pinhaes.”
   


A madeira era, de tal modo, considerada um bem precioso para o povo da Vieira que Guilherme Stephens, quando tentou fundar uma fábrica de vidros, em 1748, perto do antigo cais, teve que desistir do seu intento e vir para a Marinha Grande, por dificuldades movidas pelo povo da Vieira, que não via com agrado o consumo em grandes quantidades de tão valioso bem na laboração desta fábrica.


É durante todo o século XIX que as informações sobre a Vieira se tornam mais precisas. A actividade intensa na Foz do Lis e o desenvolvimento da Vieira permite-nos ter uma ideia sobre a vida vieirense.

A irregularidade do rio pôs, por algumas vezes, em perigo as habitações dos pescadores; situação essa que levou a que nos princípios do século XIX se empreendessem trabalhos para regularizar o seu leito. São precisamente essas obras que marcam o início de uma época de prosperidade não só para a Vieira, como para o próprio rio que, tornando a ser navegado, leva D. João VI a publicar a 21 de Abril de 1824 o “ Regulamento Geral da Fazenda da Marinha”, no qual determinava que o embarque de madeiras do pinhal de Leiria se fizesse na Foz do Lis.



O porto da Vieira terá, então, um grande desenvolvimento após a construção do molhe Oudinot (construção de um molhe longitudinal até ao nível da maior baixa-mar) e da construção das Tercenas – barracões destinados ao armazenamento de penisco, isto é, de pinhão, madeiras, resinas e pez – na margem esquerda do Lis.

Anteriormente a 1824, o embarque de madeiras era feito em S. Pedro de Moel, mas em virtude de um incêndio que destruiu uma grande parte do pinhal contíguo, esse embarque passou depois a ter lugar na foz do Lis. Só depois desta data é que o depósito de madeiras se instala na margem esquerda do rio. Em 1840 e com duração até 1845 fundou-se uma fábrica de vidro, no sítio do cais e nela se fazia somente vidraça. Ainda em 1840, há a registar a construção de algumas embarcações de pequena cabotagem: caíques, lugres, saveiros, etc.


No depósito, todo o material lenhoso e outro como vidros, alcatrão e sementes era empilhado e arrumado devidamente, aguardando aí a ocasião própria para o seu embarque. Em período de boas marés, o rio era navegável e os barcos vinham até junto das Tercenas, sendo aí então carregados. Vieira de Leiria era, então, um aglomerado significativo, composto por construtores navais, vidreiros, pescadores, limeiros, ferreiros e serradores.


Considerada o mais importante centro de fabrico de limas do país e o maior aglomerado populacional da área, é elevada à categoria de Vila a 9 de Julho de 1985. De facto, a indústria veio, de tal modo, revolucionar as condições de vida na Vieira, modificando quase por completo o género de vida tradicional, sendo, actualmente, a pesca pouco mais do que uma actividade acessória.


Trata-se de uma freguesia que, ao longo dos anos, conseguiu promover a fixação da população, não só por aí conseguir reunir as condições consideradas indispensáveis à sua actividade, quer ela seja no sector industrial, comercial, agrícola ou de serviços, mas também pela capacidade de trabalho e de organização das suas gentes.

Contactos

www.jf-vieiradeleiria.pt|